“China não quer ser superpotência”, diz académico da Universidade de Hong Kong

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Edward Chen Kwan-Yiu acredita que o mundo é hoje dominado por duas economias a oriente e ocidente, mas são os Estados Unidos que dominam, porque a China não quer, para já, assumir as responsabilidades de uma superpotência. O professor do centro de estudos asiáticos da Universidade de Hong Kong diz mesmo que o RMB não vai ser moeda internacional nos próximos tempos.


 

Numa altura em que muitos analistas dizem que a China está muito perto de ultrapassar os Estados Unidos, Edward Chen Kwan-Yiu vem dizer o contrário. Este académico da Universidade de Hong Kong, que falou numa palestra dos 29 anos da Macau Management Association (Associação de Gestão de Macau), acredita que o mundo não é hoje dominado pelo chamado G2, mas sim pelo G1,5. “O mundo vai continuar dominado pela China e pelos Estados Unidos nos próximos 20 ou 30 anos. Agora podemos chamar de G2 – não a Europa, não o Japão, mas apenas a China e os Estados Unidos. Mas os líderes chineses não querem que este grupo seja chamado de G2, porque a China não quer ser a super potência nesta altura, porque, como os seus líderes disseram recentemente, a posição de super potência traz responsabilidades. A China não quer essas responsabilidades. Então a melhor maneira para descrevermos hoje os países não é utilizando a expressão G2, mas sim G1,5, e esta expressão foi criada por mim. O meio fica para a China, enquanto que o um é dos Estados Unidos.”

Edward Chen, que coordena o cento de estudos asiáticos da Universidade de Hong Kong e foi presidente da Universidade Lingnan entre 1999 e 2007, apresentou cinco tendências globais para o mundo em que vivemos hoje. Quis ainda explicar “quais as implicações que estas tendências (podem ter) para fazer negócios na Ásia”.

Para este académico, a Ásia é hoje a China mais dez. Neste grupo de dez, entram países como a Indonésia, Singapura ou Filipinas. “Será então a China que, com mais dez, farão parte deste sólido motor de crescimento nos próximos dez, vinte ou mesmo trinta anos. E não esperamos muito mais do Japão. Acredito que vai continuar com um crescimento brando.”

RMB não internacional
Em relação à moeda, Edward Chen não duvida de que o dólar norte-americano vai continuar a liderar os mercados. “Não vejo o dólar americano a descer. Vai sofrer oscilações, mas não uma grande quebra. Vai manter-se como a grande moeda internacional, talvez a única. A razão é simples, e não tem a ver com o facto da moeda americana ser forte. A razão é porque não há (uma moeda) substituta.”


“Podíamos falar do japonês Ien, mas não, de maneira nenhuma. O Euro não pode substituir o dólar. O que sobra é a nossa moeda, o RMB, mas não pode ser o substituto para o dólar americano num futuro próximo. A moeda será mais internacional, mas há um longo caminho a percorrer. Uma moeda internacional tem três funções, mas o RMB só desempenha duas, porque não está ainda internacionalizada. Não há uma abertura total em termos de capitalização”, disse o académico.

A manutenção do poder da moeda americana irá, na sua opinião, manter a situação financeira mundial estável. “A crise europeia não vai trazer uma crise em todo o mundo. Mas mais do que estas crises e a instabilidade é importante olhar para o papel do dólar americano. Enquanto o dólar americano se mantiver como a moeda mais importante eu não acredito que haja uma grande crise financeira.”

Não só o dólar vai crescer como deverá crescer entre 2 a 3%. “Sinceramente não acredito que haja uma grande quebra no dólar, pelo que podemos continuar a manter uma postura confortável e segura em relação aos Estados Unidos.”

Ásia cooperante, mas competitiva


Se na América Latina o Brasil é o espelho do crescimento, tal como a Angola o é em África ou a Alemanha na União Europeia, a China não é o único país a ser o símbolo do crescimento asiático. Os restantes dez países têm vindo a assumir o seu papel e estão para ficar. “Temos hoje um crescimento muito diferente, temos dois poderes e um deles está na Ásia. A questão é como é que a Ásia continua a crescer, e fá-lo enquanto região. Olhando para o mundo, vemos muitos países a crescer individualmente, e estão tão optimistas quanto a Ásia. Quando eu digo que a Ásia está a crescer como um todo, falo de uma cooperação muito próxima mas ao mesmo tempo da existência de uma competitividade entre os países asiáticos. E
les crescem como uma equipa”, explicou Edward Chen.

“Quando olhamos para todos os acordos de cooperação vemos dez países mais a China. A nível comercial temos de falar da China, Coreia e Japão. E nos últimos anos têm sido estes três de forma repetida. Mas no ano passado surgiu a Índia e a Austrália. Estão a trabalhar juntos mas também competem entre si”, acrescentou.

A economia dos recursos naturais


No seu discurso proferido perante uma plateia de empresários, deputados e membros do Governo, Edward Chen não esqueceu de referir que hoje assistimos cada vez mais ao poder das economias com recursos naturais vastíssimos. “Quais as implicações desta nova economia? Entramos num esquema de recursos naturais. Hoje a digitalização já não é tão importante quanto os recursos naturais, porque vamos precisar deles. A tecnologia é fácil de criar, a produção está estabelecida e pode ser aprendida. Mas os recursos naturais já não hoje tão acessíveis. E aqui entram os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) – porque são os países ricos em recursos naturais. Então os recursos naturais estão a tornar-se na nova economia, e não a tecnologia.”


Mas há ainda as Novas Economias Industrializadas (NIE, em inglês), como Hong Kong, Taiwan, Singapura. “Hoje regiões mais pequenas como estas, e onde se pode incluir Macau, não podem ser vistas de lado. Podemos ver os países ricos em recursos naturais. Mas temos os novos recursos naturais – hoje não bastam os profissionais e especialistas, precisamos de alguém que possa criar e pensar, mais do que fazer. Então a grande procura está nos recursos humanos. Temos um consumidor mais educado.”