A Igreja Católica na China: da introdução à “sinização” André Saraiva Santos e Larissa Ma Kehan

In Estudios, Sociedad by Xulio Ríos

  1. Das Eras Imperiais ao Período Pré-Republicano: Introdução e Evolução do Cristianismo na China

Na altura em que as primeiras palavras sobre o evangelho de Cristo entraram no Grande Império do Meio, curiosamente, ainda não tinham sido disseminadas na Europa. De acordo com López (1987), haveria sido no ano 635 que através de um cristão vindo dos territórios da Pérsia, chamado de Alopen, que o Império dos Tang ouvia falar da “Religião da Luz”. Um artefacto encontrado em Xi’an evidencia esse acontecimento. (LÓPEZ-GAY, 1987, p. 45) No entanto, segundo Yan (2014), o nome de Jesus já deveria ser conhecido ainda antes deste marco, sendo os monges sírios com filiação à Igreja Siríaca do Oriente que viajavam com outros mercadores pela Rota da Seda, os primeiros difusores da vida e dos feitos de Cristo.

Independentemente destas duas referências cronológicas, é consensual a teoria de entrada da “Religião da Luz” durante o período da dinastia Tang. Sendo uma nova religião e claramente desprovida de conhecimento por parte dos habitantes da China, os monges teriam que se adaptar a um meio onde a sua fé não era maioritária nem sequer a favorita na corte dos Tang (veja-se as perseguições aos cristãos por parte de Wu Zetian), estando estes dependentes do trato que o governante no poder lhes concedia.

Até ao reinado do Imperador Wuzong, os monges sírios souberam-se integrar e adotar meios de contacto com a população nativa através da língua. No entanto, foi com a vinda de Wuzong para o poder e com a ocupação da região da Pérsia pelos muçulmanos que o Cristianismo entrou novamente em declínio, sendo ainda uma religião “estrangeira”, distante, pouco incorporada na vida das gentes locais, demasiado fechada nos seus locais de culto e dependente da boa vontade de imperadores Tang para realizarem a sua missão. (YAN, 2014, p. 14)

A segunda vaga de portadores da “boa nova” cristã inseriu-se na Corte Mongol, durante a dinastia Yuan, onde apesar do estilo sinicizado de governo de Khubilai Khan, a liberdade assim como a diversidade religiosa abundavam e os cristãos conseguiram estar representados na corte mongol juntamente com membros de outras religiões importantes da China (FAIRBANK & GOLDMAN, 2002, p. 121). Contudo, apesar dos esforços de Giovanni da Montecorvino, Arcebispo de Pequim, o cristianismo iria entrar em queda novamente, logo após a destruição da Dinastia Yuan. Este “período negro” para o trabalho da igreja foi fruto da ausência de novos elementos da igreja que dessem continuidade ao legado deixado por Montecorvino, a não ser a breve estadia de Giovanni Marignolli em 1432, 64 longos anos após a queda dos mongóis e 104 anos depois da morte de Montecorvino (YAN, 2014, p. 15).

Segundo González (2000), o aparente desinteresse de Roma em enviar mais missões a um Império longínquo, assim como a falta de recursos para suportar essas jornadas foram as principiais razões para tal ausência de missões (GONZÁLEZ, 2000, p. 145). Os portugueses haveriam de chegar às costas da China em 1513, e o Papa Paulo III deu à coroa portuguesa a missão de espalhar a fé católica na Ásia, desviando-se assim dos elevados gastos que esses empreendimentos trariam para a Santa Sé. Estabeleceu-se assim o Padroado Português e as missões na China estariam a cargo dos portugueses que, consigo, levariam também os jesuítas para o local. (TICOZZI, 2014, p. 95) Apesar de São Francisco Xavier ter morrido às portas da sua missão para evangelizar o Império do Meio, o jesuíta Matteo Ricci haveria de concretizá-la, chegando mesmo a receber aceitação por parte dos Ming para se estabelecer na Corte.

A inserção de Ricci dentro do organismo governativo do Império e a adopção do seu modo soave (ver YAN, 2014, p. 17) de acomodar tanto os ensinamentos religiosos cristãos como o respeito pelos regulamentos imperiais e pela própria cultura e forma de encarar a perceção da religião por parte dos chineses, deu azo à entrada de outros missionários cristãos nos anos vindouros. Mesmo com o destrono do Ming, os primeiros imperadores manchus da dinastia Qing, toleraram a presença jesuíta na Corte (servindo também como eruditos do Ocidente que apresentavam os seus estudos astronómicos, cartográficos, tecnológicos, fascinando a elite imperial com todo o progresso e exotismo) e também permitiram a entrada de uma grande quantidade de organizações cristãs no terreno, como Franciscanos, os Agostinianos, Dominicanos e a Missão Estrangeira de Padres de Paris. (WIEST, 1988, p. 45).

Durante o reinado de Kangxi, o Cristianismo tanto experienciou um dos momentos mais altos (como o seu reconhecimento formal em 1692), como igualmente atravessou mais um “período negro” com a sua abolição do Império em 1724. Como nos explica López-Gay (1987) surgiram dois grupos dentro da Igreja Católica que tinham interpretações diferentes dos ritos chineses. Os que toleravam a prática e outros que a viam com desdém (LÓPEZ-GAY, 1987, pp. 77-78). Os Dominicanos, mais concretamente na pessoa de Juan Mwrales, denunciaram o Confucionismo e as reverências aos antepassados levadas a cabo pelos crentes chineses.

A Cúria Romana concordou com o levantamento de uma ordem que proibia os chineses de praticar tais actos. Os Jesuítas alarmados, enviaram emissários para Roma a fim de persuadirem a Cúria a reformular o artigo de 1643 que destruiria os alicerces de respeito e tolerância para com a religião edificados por Ricci. O Pontífice Alexandre VII concordaria com a alteração. No entanto, os Pontífices em Roma mudavam constantemente, e quando os Dominicanos interrogaram a Cúria sobre qual dos documentos era o que estava em vigor, o veredicto aclarava que os dois artigos eram válidos e um não excluía o outro.

Esta contradição levou a que houvesse uma reunião de missionários em Cantão. Após 40 dias concluiu-se que o documento de Alexandre VII seria aceite. Contudo, Charles Maigrot, Bispo de Fujian e Membro das Missões Estrangeiras francesas, desrespeitava estas ordens e continuava a proibir os ritos confucionistas, de respeito aos antepassados e com a agravante de mandar retirar das igrejas as placas inscritas pelo Imperador Kangxi dizendo “Respeitem o Céu”., Mais tarde, e graças aos elementos da Missão Estrangeira de Paris que estavam contra os Jesuítas neste aspecto, conseguiram que o Pontificado executasse uma decisão final em 1704: “…Cristãos chineses não devem entrar em templos Confucianos ou templos ancestrais e não devem participar em nenhuma actividade que preste homenagem aos antepassados ou a Confúcio…”. Estavam assim declaradas as tradicionais práticas chinesas de veneração como heresia.

Depois das missões fracassadas da Cúria Romana à corte de Pequim (nas pessoas de Carlo Tommaso e Carlo Mezzabarba, assim como de Charles Maigrot) e do Pontífice Clemente XI declarar que o desrespeito pela decisão de 1704 seria considerado gnosticismo, Kangxi apercebesse da intromissão que um órgão estrangeiro pretende lançar sobre os assuntos internos do seu país e declara, em retaliação, a abolição do Cristianismo e a expulsão dos missionários estrangeiros (ZHANG, 2006, pp. 144-148). A Igreja tinha comprometido o seu papel na China sendo vítima da sua própria auto-destruição com as diferentes ordens a entrarem em constante conflito (FAIRBANK & GOLDMAN, 2002, p. 151).

Anos difíceis se seguiram, com jesuítas portugueses a terem de enveredar por condutas não-oficiais desde Macau para tentarem difundir a religião junto da população, mas com a extinção da sua Ordem em 1773 cada vez menos canais de comunicação se apresentavam. Wiest (1988) retrata bem o cenário dos missionários de então quando diz que “…o seu trabalho consistia principalmente em tentar manter a fé dos restantes católicos viva. Os esforços para procurar novas conversões eram praticamente inexistentes…” (WIEST, 1988, p. 46). As subsequentes guerras que as potências Ocidentais impuseram à China, também não melhoraram a situação do Catolicismo. Yan (2014) relembra que a Guerra do Ópio que forçou a China a aceitar, através de tratados desiguais, a presença de missionários e a condução livre das suas actividades, apenas veio abrir ainda mais o fosso existente. Se a religião já era considerada distante, a actuar na clandestinidade, pouco conhecida, agora estava também ela a ser catalogada de “imperialista”, que servia os propósitos dos agressores ocidentais (YAN, 2014, p. 20).

Shan (2004), expressa que num período em que na Europa os fortes nacionalismos eram incutidos nas mentes dos seus concidadãos, os missionários europeus que vieram para a China não chegaram ao país com uma atitude muito diferente, sentindo uma superioridade civilizacional e cultural, já que os materiais e a tecnologia da China imperial de então eram bastante atrasados. Foi um período onde a palavra de Deus se misturava com patriotismos ocidentais exacerbados, facto exemplificado no interior das próprias igrejas onde se colocavam as bandeiras dos respectivos países protectores da missão estrangeira (SHAN, 2004).

A França, que já tinha vindo a contestar e competir com o Padroado Português pelas missões na China, haveria de conseguir a posição de destaque que ansiava. Em 1846, no seguimento do Tratado de Whampoa, os Qing pressionados pelos franceses levantam a abolição do Cristianismo e no Tratado de Tianjin em 1858 toda a legislação anti-cristã iria ser revista. A Santa Sé, no Concílio do Vaticano I (1869-1870), preferia a acção da França como protectora dos interesses da igreja católica à criação de uma igreja nativa, assim como não via a necessidade de apontar nenhum Núncio à China para criar uma ponte de diálogo entre as duas partes. (MARIANI, 2011, p. 10).

Os vários estratos da sociedade chinesa viam os missionários como “…estrangeiros subversivos, os quais na sua conduta imoral e nos seus ensinamentos encontravam apoio em canhoneiras…”. Usufruindo da extraterritorialidade, várias nações cristãs fizeram grandes esforços no terreno, entre 1860 até 1900, para tentar atrair novos crentes mas sem efeito. (FAIRBANK & GOLDMAN, 2002, p. 222) “…Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar…”. De facto, a frase do Padre António Vieira já antes destes acontecimentos, ilustrava bem que os caminhos da fé não devem ser impostos pela força nem coerção.

O ódio ao estrangeiro teve a sua mais alta demonstração na Rebelião dos Boxers de 1898 a 1901 e os missionários foram atingidos, perseguidos e os seus locais de culto destruídos por um grupo de revoltosos que se apoiava em práticas xamânicas e na arte marcial chinesa de kong-fu para suprimir o imperialismo estrangeiro. Esta revolta seria esmagada pela intervenção armada conjunta de vários países ocidentais e obrigariam a China dos Qing a mais uma humilhação com cedências de concessões e indemnizações pelos danos causados (ibidem, p.230-232). A insatisfação popular com o governo retrógrado, obsoleto e impotente dos Manchus vinha crescendo e em 1911 estala mais uma revolução, desta vez para fazer o imperador sair do trono e instaurar-se uma nova forma de governo: a República (GONZÁLEZ, 2000, p. 150).

  1. Relações Santa Sé – China na pós-implementação da República da China

Em 1922, houve uma intenção formal da Santa Sé de fortalecer as relações oficiais com o Guomindang (GMD) ou também apelidado de Partido Nacionalista, e, desta forma, enviou nesse ano um Delegado Apostólico([1]) ao país (Celso Constantini)  (CHAN, 1989, p. 815). Pressentia-se no Vaticano que haveria que libertar a religião católica do vínculo à França como “Protectora” das suas missões, assim como da acção conjunta com potências estrangeiras (HAYHOE & LU, 1996, p. 109).

A ausência desse proteccionismo seria benéfica para ambos os lados. O catolicismo deixaria de ter uma conotação imperialista e essa pretensão estava presente também na ideologia do GMD (assim como na do Partido Comunista) de libertar a China das potências ocidentais. Para além disso, o que seria então líder do GMD, Chiang Kai-shek, era cristão e pessoalmente ansiava por uma aproximação com o Vaticano. (LEUNG & WANG, 2007, p. 495)

Foi durante o Papado dos dois Pios (XI e XII), que as relações entre a China e a Santa Sé conheceram um melhoramento bastante significativo. Em 1926, Constantini conseguiu que fosse aprovada a formação de uma hierarquia clerical nativa, podendo os chineses assumir cargos de liderança, em 1939 houve uma revisão da interpretação da Igreja Católica em relação aos ritos chineses, que passaram a ser permitidos e respeitados, como também houve o estabelecimento de relações diplomáticas em 1942 com o envio de Xie Shoukang como embaixador chinês no Vaticano.

Em 1945, nomeou-se o “primeiro Cardeal no Leste Asiático”, o chinês Tian Gengxin, e no país já se procedia a uma divisão das províncias em dioceses e prefeituras assim como a nomeação de bispos e arcebispos  (YAN, 2014, p. 21). Em 1946, com vista a elevar a relação existente entre Santa Sé e a República da China substituiu-se o Delegado Apostólico (na altura Monsenhor Zanini) por um núncio (Monsenhor António Riberi).

Quando estalou de novo a guerra civil (1945-1949) entre nacionalistas e comunistas, a Santa Sé tinha clara preferência pelo GMD para o comando governativo da China. Isso é provado pelo comportamento ideológico anti-esquerdista do seu núncio, Riberi, que fundou um grupo católico organizado responsável por colocar freio ao comunismo: A Legião de Maria (CARLETTI, 2008, p. 57). No final do ano 1948, a Igreja Católica tinha resultados positivos em termos de alocação de nativos na estrutura eclesiástica assim como “…o rácio pessoal-para-paroquianos era bastante invejado por nações católicas que já tinham o Catolicismo bem instaurado…” (MARIANI, 2011, p. 17).

A vinda do Partido Comunista Chinês (PCC) para assumir os destinos do país e a implementação da República Popular da China (RPC) em 1949 fizeram com que certas variáveis que até então estavam em andamento se alterassem. O PCC tornou claro que o que acontecera no passado, em relação à cooperação Igreja – Fações Imperialistas não se poderia voltar a repetir, e, por essa mesma razão, estabeleceu políticas que impedissem esse mesmo evento de ser reincidente.

Uma dessas políticas foi a privação de agentes externos controlarem assuntos da própria China, e assim a Santa Sé não pôde ter o mesmo papel que auferia anteriormente com o governo de Kai-shek (TSO, 2011, p. 5). Apesar do núncio António Riberi ter instruções do Papado para permanecer na RPC, em 1951, haveria de receber a ordem de expulsão por parte dos comunistas, e viajaria para Taipé pouco tempo depois (LEUNG & BENEDICT, 1983, pp. 9-10).

  1. O PCCh e o Catolicismo: o nascimento da APCC e as políticas reguladoras do governo

Aquando da implementação da RPC, o governo face aos eventos do passado já mencionados, à relação distante que tinha com o Vaticano, à sua própria ideologia partidária ateísta e a sua política de proteger a China e o povo chinês da interferência estrangeira nos seus assuntos internos, decidiu aplicar formas de controlo a certos elementos e actividades religiosas.

Segundo Yan (2014), Zhou Enlai, na altura primeiro-ministro da RPC, quis tornar clara a política do governo reunindo-se com os líderes da religião católica na China em 1951. Haveria que se colocar uma divisão entre os aspectos considerados espirituais e aqueles que eram considerados de índole política e económica. Foi nessa linha de pensamento que os bispos chineses actuaram e elaboraram um sistema para a Igreja na China composta pelo conceito das “Três Autonomias”, ou seja, a Igreja na China deveria estabelecer uma hierarquia nativa (auto-governante), recusando receber assistência financeira do exterior promovendo a sua própria independência na gestão de fundos (auto-suficiente) e aceitando apenas a ajuda de missionários estrangeiros caso eles servissem somente os interesses da Igreja local e não os dos estrangeiros ou dos seus países de origem (auto-propagandista).

Depois de algumas deliberações informais, o PCC aceitou em 1954 o estabelecimento da primeira organização oficial cristã: “O Movimento Patriótico das Três Autonomias” (MPTA), ligado ao ramo Protestante (YAN, 2014, pp. 23-24). Para os protestantes era mais fácil a proclamação da tão ansiado afastamento de organizações centrais do Ocidente, já que ao contrário do que acontece com a religião católica, não possuem um líder espiritual como o é o Papa. O ramo católico chinês também iria enviar o seu manifesto para que se adquirisse o mesmo estatuto que o MPTA, algo que veio a ser aceite pelo PCC poucos anos mais tarde (CARLETTI, 2008, p. 81).

Em 1957, criar-se-ia a Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC), com a sua própria constituição a defender o seu papel na sociedade como ponte entre o Estado e o povo da igreja, assim como o seu carácter patriótico, de amor pelo país. A APCC manteria a sua ligação estritamente religiosa, ou melhor, espiritual com o Papa, defendendo, contudo, que a soberania do governo chinês em relação a quaisquer assuntos ligados ao país seria máxima.

Por outras palavras, a APCC não consultaria o Vaticano nem buscaria a sua aprovação para a nomeação de elementos na sua hierarquia. Era necessário afastar quaisquer “tentáculos do colonialismo” e todo o tipo de interferências imperialistas camufladas. O mote enraizado naquele período era o de “oposição ao imperialismo, amando o seu próprio país”.

No período de 1966-1976, a RPC teve de passar por uma etapa do Socialismo Maoista que necessitava da cessão de actividades religiosas no país: o período da Revolução Cultural. Assim a APCC teve de suspender as suas funções durante este período, até que em 1978 os representantes religiosos das principais fés da China voltaram a aparecer no diálogo formal, mais concretamente na Conferência Política Consultiva do Povo Chinês.

Com Deng Xiaoping no poder, deu-se um importante passo para a revisão constitucional na área das religiões, sendo permitida a crença, ou não, a qualquer cidadão em qualquer fé, não sendo igualmente permitida a ostracização destes cidadãos pela escolha religiosa que optem, estando estes protegidos pelo governo desde que desenvolvam “actividades religiosas normais” (YAN, 2014, pp. 24-27). Várias igrejas católicas e protestantes foram reabertas, assim como os templos budistas e as mesquitas islâmicas.

De facto, Deng queria dar um novo rumo às religiões dentro do seu país e o seu governo, em prol desse movimento, criou um Instituto das Religiões Mundiais na capital para promover um estudo destas e ajustá-las ao ponto de vista marxista (HE, 2003, p. 32). Para tal, voltou-se a estabelecer o mecanismo que serve de “ponte” ou mediação entre governo e religiões com a entrada em funcionamento do Departamento de Assuntos Religiosos. O ressurgimento da APCC, também veio com uma reafirmação no seu carácter patriótico expondo como sendo objectivos da organização unir o grupo de fiéis e enquadrá-los na liderança do Partido, seguindo as suas directrizes e agindo em conformidade, enaltecendo o espírito patriótico dos mesmos, para além de ser apoiante dos valores nobres universais da paz e da liberdade de crença religiosa.

No seio da APCC também foram criados dois organismos para melhor gerir os seus assuntos internos: a Conferência dos Bispos Católicos Chineses (CBCC) e o Comité Administrativo da Igreja Católica Chinesa (CAICC). Como aponta Carletti (2008), a CBCC “…nascia com a intenção de concretizar o auto-governo da própria Igreja Católica…” e ao CAICC “…cabia resolver os assunto pastorais e organizacionais da Igreja Católica…”  (CARLETTI, 2008, p. 130). Em 1981, o governo aceitou que os católicos na China reconhecessem o Papa como o “líder espiritual” da sua religião, contudo, deixava bem claro que essa visão não se aplicava à autoridade administrativa.

Outro sinal de tolerância foi dado em 1982, com a permissão dada aos Católicos de mencionarem o nome do Papa nos seus rituais (Clark, 2018). De 1990’s em diante, o governo chinês reforçou a sua intenção de proibir quaisquer práticas religiosas que não estejam oficializadas pela APCC e CBCC e que não sigam as directrizes governamentais (YAN, 2014, pp. 28-31).

  1. Entendendo os “Pilares” da Política Religiosa Interna e Externa do PCC

A ideologia comunista prevê o desaparecimento da religião como uma meta a ser atingida a longo prazo depois de certas etapas serem alcançadas. Apesar disso, o PCC tem, ao longo dos anos, tido uma conduta que favorece a tolerância religiosa, que enaltece o seu papel como agente do socialismo e auxiliador de uma sociedade harmoniosa, respeitando a unidade nacional.

A explicação do governo para a sua abordagem religiosa de hoje está fortemente ligada aos acontecimentos históricos descritos anteriormente. Segundo a interpretação dada por documentos oficiais presente no livro de Donald MacInnis (1989), após as humilhações impostas pelas potências estrangeiras na China, a religião foi utilizada por vários grupos como um mecanismo para a extensão de benefícios, nomeadamente senhores de guerra, grandes proprietários, barões de tráfico humano e potências estrangeiras.

Os ramos do Cristianismo (Catolicismo e Protestantismo, mais especificamente) estiveram nas mãos das forças colonizadoras imperialistas que dividiram e exploraram a China, e por isso, ao serviço dos seus propósitos. Como tal, a RPC adoptou uma forma de acomodar o lado positivo das religiões (termos espirituais) aceitando a crença da população nas mesmas, não obstante, exercendo também um controlo firme sobre os assuntos internos do país, o que significa que a religião terá sempre de ser um assunto nacional onde nenhuma outra entidade exterior poderá exercer controlo. Para isso foram criadas igrejas patrióticas para defenderem a China do imperialismo, adoptando os três princípios de independência, autonomia e auto-propaganda. Para além disso, é essencial que estas religiões cultivem juntos dos crentes o amor pelo país ao mesmo tempo que expõe o amor pela religião. (MACINNIS, 1989, pp. 97-98)

4.1  O “Pilar” da Política Interna Religiosa do PCC

Apesar da ideologia ateísta do PCC, é intuito do mesmo respeitar e proteger a liberdade religiosa (todo o individuo tem a liberdade de crer ou não numa religião) assim como as conversões e as desistências religiosas. Estas apenas poderão ser concretizadas caso seja a própria opção da pessoa em fazê-lo. Nesta lógica, não se pretende utilizar a coerção nem forçar os habitantes do seu país à desistência religiosa, pois o seu último objectivo é criar uma sociedade que promova um poderoso Estado Socialista e para isso, neste momento, crentes e não crentes têm de estar juntos neste processo.

Aliás, o documento 19, outorgado pelo PCC em 1982, exalta esse mesmo facto, garantindo que a religião não pode nem deverá ser erradicada. Também não é objectivo do estado a promoção de nenhuma religião para a sua população nem é sua meta a proibição de nenhuma das religiões oficiais. Para além disso, é fortemente vincado ao longo dos anos pelo governo chinês, que não se voltará aos erros do passado em permitir que qualquer ordem religiosa do exterior (inclusive Santa Sé) usufrua privilégios dos “tempos feudais”, como também não permite a interferência das mesmas na estratégia delineada para o seu país. (ibidem, p.14-15) Foi com esse intuito, e para que se proceda a uma correcta implementação das directrizes do PCC, que tomaram forma as oito organizações patrióticas religiosas patrocinadas pelo governo, inclusivamente as cristãs, que já foram mencionadas anteriormente.

As expectativas em relação às mesmas são o fortalecimento de espírito patriótico e socialista dos crentes e o auxílio na promoção e correcta transmissão da mensagem do PCC, tendo o papel de “pontes” entre a política comunista e os grupos de crentes, educando-os e unindo-os (ibidem, p.19) Os membros pertencentes a estas organizações religiosas patrióticas recebem formação por parte do PCC nas teorias socialistas marxistas, fomentando-se assim um vínculo relacional forte entre ambos os lados. Será também um objectivo a longo prazo do PCC o de demonstrar às pessoas (e aos crentes) que os idealismos (tal como é a religião) têm de ser gradualmente desconsiderados, mostrando-lhes que não existe fundamento em recorrer a um mundo transcendente e a uma entidade ilusória para lidar com o mundo (ibidem, p.25-26).

4.2  O “Pilar” da Política Religiosa Externa do PCC

Em relação às relações internacionais, nomeadamente no contacto com ordens religiosas, o PCC tem uma política cuidadosa. Apesar de ser sua intenção levar a cabo o estabelecimento de um grande número de contactos internacionais com as várias entidades, aumentando a influência política mundial da RPC, existem certos grupos religiosos / entidades morais no exterior que se pretendem manter afastados já que a sua actuação pode prejudicar os objectivos finais da estratégia partidária.

O Vaticano está entre os nomes dessa lista, conotado como uma “força religiosa estrangeira” que pretende interferir nos trabalhos internos do PCC, para além de ser uma antiga lembrança do imperialismo que assolou e feriu a China gravemente. O PCC não proíbe os intercâmbios entre pessoas religiosas, desde que esses propósitos sejam os académicos, os culturais e os espirituais. Qualquer movimento ou acção que ponha em risco os princípios de uma igreja independente ou que tente apoderar-se de alguma religião no país terá de ser suprimido. O Partido também exalta que todas as organizações religiosas do país não devem aceitar ajudas financeiras vindas do exterior com propósitos religiosos. O PCC não tolera o estabelecimento de organizações religiosas não oficiais, assim como de igrejas ilegais (que são inclusive vistas como objecto de forças estrangeiras para se tentarem infiltrar no país).

Em suma, a linha externa do partido fica patente nesta frase: “…desenvolvendo relações amistosas com os grupos religiosos do estrangeiro, enquanto mantemos a nossa política de independência…” (ibidem, 1989, pp.23-24).

4.3  Hiato na compreensão dos “Pilares” da política partidária: o exemplo da Carta do Papa Bento XVI à Igreja da China

Na carta de 27 de Maio de 2007, enviada pelo Papa aos católicos na China demonstram alguns aspectos essenciais da visão que a Santa Sé, até então, tinha em relação ao seu mundo de crentes e à maneira como encarava o diálogo para com a RPC. É uma breve exposição de uma carta oficial, que tenta ser uma mensagem inspiradora para os cristãos do país, como também tenta estabelecer uma ponte de diálogo com o PCC, mas que acaba por insistir em posições antagónicas e de incompreensão com o panorama governativo da China.

Procedendo à análise de premissas desse documento e contrapondo-as com as políticas internas e externas supramencionadas, sobressaem claras contradições. No dito documento vislumbra-se a seguinte frase: “…A Igreja é o salvo-conduto da dimensão transcendental da pessoa humana…”. A controvérsia começa imediatamente nesta frase. Lembre-se que o PCC é ateísta e portanto livre de pensamentos ou intenções extra-terrenas, não acreditando que a Igreja do Vaticano irá ser salvo-conduto de coisa alguma.

A carta continua dizendo que “…na sua proclamação, a Igreja local devia de ser fiel a Cristo, em comunhão com a Igreja Universal, sob a liderança do Papa, focalizado na missão de proclamar o Evangelho e nunca interferir em política…”. A ideia de que o Papa, figura distante e ocidental, tem de controlar os destinos universais da Igreja, inclusive da China, não se entende em Pequim. Quando se diz nos discursos oficias do Vaticano que a sua missão é apenas de evangelizar e não interferir em política, isso não representa a verdade na sua totalidade.

Para o PCC, nomear os líderes que estão à frente das religiões do país é um assunto nacional, que só diz respeito à China e ao governo que preside. Para além disso, a APCC segue os ensinamentos espirituais do Papa, não sendo quebrado o vínculo da moral cristã. Outra parte do documento afirma que “…a Igreja não procura nenhum privilégio especial, mas apenas quer altruistamente fazer o seu trabalho para o bem do povo chinês…” De facto, cada premissa enviada para Pequim esbarra nos limites delineados pelo partido.

Está claro que se o Vaticano tiver a possibilidade de nomear um bispo na China, já representa um privilégio extraterritorial, uma intromissão num assunto religioso de outro país, de outro continente. Como não entender isso como um privilégio? Em relação à natureza altruísta/desinteressada da Santa Sé na China, em prol do “bem” do povo chinês, são tudo termos que pecam pela sua ambiguidade e subjectividade. Repare-se que a palavra “bem” pode ter significados diferentes tanto para Santa Sé como para PCC. Do Vaticano, encerra-se o documento da seguinte forma: “…Com esta atitude positiva, a Santa Sé, naturalmente, espera obter a compreensão e aceitação das autoridades chinesas através do diálogo…” Claramente, expostas as premissas que o Papa teceu anteriormente não facilita a compreensão nem aceitação do PCC assim como não apresenta qualquer naturalidade na lógica.

Contudo, o documento termina afirmando algo que está claro e é comum a ambos os lados: “…muitos desentendimentos e muita incompreensão permanece (…) isto coloca a Igreja num dilema.” (Tripod, 2017, pp. 71-73)

  1. 1. A abordagem governamental da era Xi em relação aos assuntos religiosos

Xi Jinping tornou-se presidente da RPC em 2012 na altura do 18º Congresso Nacional do PCC (também conhecido na China como 十八大). Quando assumiu o governo do país, Xi apresentou uma nova agenda para os assuntos religiosos e, mais tarde, o Bureau de Assuntos Religiosos publicava as suas directivas: Para conseguir uma correcta adequação na implementação das políticas partidárias aos assuntos religiosos nacionais, a directriz mais importante é saber “guiar” (导) os destinos das religiões e, consequentemente, os da Igreja.

O objectivo deste “guiar” tem como fim “…corrigir os conhecimentos erróneos que se têm acerca da religião, de forma a que se defina bem a direcção do trabalho religioso e se possa promover a sua estabilidade…”. Xi apresentou, igualmente, um conceito inovador a ser adoptado pelas religiões do país. A direcção para a qual se pretende “guiá-las” é a seguinte: “…uma religião socialista com características chinesas…”, ou também conhecida por “sinicização” (中国化) das religiões, sendo vista como o sucesso mais recente da nova visão religiosa marxista implementada pela China.

É do conhecimento do partido que a religião tem o mesmo carácter volátil igual ao de uma moeda, que possui duas faces, podendo ter um lado bom e um lado mau. Ou numa concepção mais oriental do termo, um “yin yang”(阴阳), que necessita de ser analisado, gerido e guiado de perto para que se possa minimizar o aspecto negativo e maximizar o positivo, ao mesmo tempo que se adapta esta dimensão à sociedade socialista. O partido acredita que para o alcance de uma sociedade socialista com características chinesas é necessário haver sinergias que impulsionem esse movimento e, desta maneira, não só a política e a economia estão intrinsecamente ligadas ao processo como também o está a religião, precisamente na condução dos fiéis em torno do partido (SARA, 2013).

Com a vinda do novo presidente, novos léxicos foram rotulados às religiões, dando uma ideia do que se espera delas. Contudo, os termos “Liderança” e “Sinicização” careciam de um aprofundamento do seu real significado, percepcionados mais como slogans políticos pela parte dos meios de comunicação social.

5.2. O conceito de “Liderança” () na política governamental religiosa de Xi

No que diz respeito ao primeiro termo (Liderança), a resposta pode ser entendida no estudo de Batke, aquando da comparência do Presidente chinês na Conferência Nacional dos Trabalhos Religiosos em 2016 (algo que já não acontecia desde 2001 com Jiang Zemin). Este acontecimento deu-se em Abril, e nessa ocasião mostrou-se mais uma vez os sinais da importância que o governo chinês coloca nos assuntos religiosos da actualidade e foi no seu discurso que se destacou a visão política que é esperada daqui em diante.

Um dos ênfases é na “liderança” (导) partidária, que será responsável pela execução de dois movimentos híbridos. “Aliviar” (放) e “apertar” (收). “Aliviar” no sentido de não a constranger. “Apertar” refere-se essencialmente à colocação de mecanismos de controlo de forma a que a religião não esteja isenta de supervisão ficando assim vulnerável às interferências do exterior. Xi explicitou que o país encontra-se numa “Nova Situação” e que enfrenta alguns desafios que podem constranger a persecução dos seus objectivos, entre eles está, por exemplo, a proliferação de pensamentos extremistas, através de influências vindas do estrangeiro que entram no país pelos meios de comunicação social, sendo o mais comum a internet.

Desta forma, o governo lançou novas regras de controlo para que haja uma maior transparência no tipo de comportamento que se pode ou não adoptar assim como as consequências e sanções aplicadas caso o grupo religioso ou o individuo não esteja a seguir as “regras da lei”. Todos os eventos ligados à religião (inclusive as campanhas de caridade) têm de estar devidamente registadas, amparadas pelas organizações patrióticas religiosas, assim como os locais de culto legalizados. É através deste formalismo, desta burocracia, deste delinear do que é aceitável pela lei, que se visa criar uma ligação forte entre “o Estado de Direito” e a “Religião”, diminuindo-se o risco das tais ameaças à estabilidade governativa (BATKE).

5.3. O conceito de “Sinicização” (中国化) na política governamental religiosa de Xi

Em relação ao segundo termo “Sinicização”, só recentemente, foi explicado por um professor da Universidade de Pequim. A “Sinicização” da religião não é apenas um slogan, mas sim um conceito teórico. Zhang Zhigang, Diretor do Instituto da Religião e Cultura, explicitou a mesma afirmando que esta compreende três pressupostos: O primeiro aponta para três dimensões (cultura, nacionalidade e sociedade) para correctamente se entender o que significa “ir na direcção da Sinicização”.

Segundo este académico, é necessário que as religiões da China se enraízem na cultura chinesa, “…criando tradições fortes com a cultura chinesa e fazendo contribuições positivas para a sociedade nacional…” O segundo pressuposto é baseado na visão de Hans Küng, um católico chinês, teólogo e filósofo, que vinca dois componentes essenciais e que são inseparáveis um do outro. Componente A: “…Só quando estiver realmente enraizada no solo da cultura chinesa é que a Cristandade Chinesa terá um futuro…”. Componente B: Para alcançar isso é necessário livrar o Catolicismo de todas as práticas e actividades religiosas com traços imperialistas ou colonialistas, opondo a Igreja Católica Chinesa à Ocidentalização, ao estilo dos missionários, e à “…directa tradução da teologia Ocidental para o pensamento chinês. Em vez disso, devemos contemplar e praticar a fé cristã dentro da China, de forma a que consigamos erguer os seus valores com a nossa cultura nacional…” Ou seja, um reforço de uma igreja independente, expressa nas Três Autonomias. O terceiro pressuposto é baseado na “identidade” chinesa, no larguíssimo e ininterrupto legado deixado pela cultura da China. Só entendendo esta máxima, os seus costumes e as suas tradições, poderá a religião estar em sintonia com a sociedade chinesa (ZHANG Z. , 2017).

5.4. O 19º Congresso, o Fórum Católico Teológico de Ningxia e o plano futuro para o Catolicismo

Xi, um presidente que segue de perto os assuntos religiosos do país, não poderia deixar de convidar os líderes de todas as religiões para assistirem ao seu discurso oficial a fim de perceberem qual seria o papel conferido às religiões para esta nova era. No 19º Congresso Nacional do PCC (十九大), o discurso do presidente direccionado às religiões foi sucinto e directo.

Após dar relevância aos aspectos essenciais repetidamente enfatizados no Congresso (autonomia do povo, desenvolvimento político democrático socialista, solidificação da Frente Unida Patriótica, “um país dois sistemas”, implementação do socialismo com características chinesas) Xi expôs: “…Implementar integralmente a directriz básica do partido sobre o trabalho religioso, aderir à orientação chinesa da religião da China e orientar activamente as religiões para que se adaptem à sociedade socialista…”. Para finalizar, ainda houve a preocupação de alertar para o lado menos positivo da religião, sendo necessário tomar medidas contra as infiltrações do exterior, o radicalismo religioso, acautelamento de possíveis ataques à integridade da China provenientes de extremistas que usam a religião para esses mesmos fins (中国天主教, 2017, p. 9).

Os responsáveis das religiões proferiram declarações após o Congresso e mostraram interesse em prosseguir com as ideologias partidárias e trabalhar para o alcance das metas colocadas por Xi. (ibidem, p.6-7) Desta forma, procedeu-se à convocação rápida (logo após um mês do 19º Congresso) de um encontro nacional para alinhavar os métodos de acção da Igreja Católica na China.

Em Novembro de 2017, dava-se o Fórum Teológico da Sinicização Católica, organizado pela APCC e pelo CBCC em Ningxia, presidida pelos respectivos líderes Fang Xingyao e o Bispo Ma Yinglin. O alto representante da APCC expôs a direcção da qual se esperava orientar a Igreja Católica no país durante os próximos anos, seguindo o caminho pautado pelo presidente Xi. Será preponderante para o Catolicismo que se encontra numa “… Nova Situação (…) que insista na direcção da Sinicização do Catolicismo…” compreendendo o seu auto-governo, a sua independência, o seu encaixe entre o Envangelho apregoado e a cultura do terreno e a adopção dos valores centrais do Socialismo como base ideológica central e moral do Catolicismo. O bispo Fang terminaria o seu discurso proferindo as seguintes palavras de ordem: “…Temos que garantir que o Catolicismo da China avança na direcção da Sinicização para sempre…”.

Após as palavras do bispo, o vice-director do Bureau Nacional dos Assuntos Religiosos, Chen Zongrong, explicou que no futuro ver-se-á implementada a seguinte ordem de trabalhos para o estabelecimento da “Sinicização” no círculo de crentes: Haverá uma “…Sinicização no pensamento teológico, uma Sinicização das cerimónias de adoração, uma Sinicização dos edifícios religiosos e uma Sinicização da arte religiosa…”. Igualmente importante para o alcance destas metas estarão a correcta utilização da educação, publicidade, regulamentos institucionais para se poder guiar os católicos à “Sinicização” (chinacatholic.cn, 2017).

  1. Conclusão

O Cristianismo apesar da sua entrada bastante atempada na China, não conseguiu arrecadar um grande número de crentes. Mesmo apoiada nos esforços de missionários proeminentes que arriscavam a vida em viagens e estadias arriscadas para evangelizar o grande Império do Meio careceram de apoio em praticamente todas as áreas por parte da Igreja Católica Romana.

A China de então, vista como um país remoto, um sugadouro de meios financeiros e com poucos fiéis, não recebia muita atenção de Roma. Assim, a Santa Sé, mais tarde, delegou as suas missões a países europeus e esse terá sido um dos seus maiores erros na missão (e no processo) de transmitir os ensinamentos cristãos à China. Assim como foi a sua intolerância demonstrada pela não-aceitação dos ritos chineses, práticas já bastante enraizadas na cultura do povo chinês.

Posteriormente, esses países chegariam à China não com os propósitos nobres de bondade, paz ou humildade, mas com a ânsia de saquear e dividir o Império do Meio entre si. Os missionários, recebendo a protecção de cada divisão militar de determinado país estrangeiro, entravam assim no país para evangelizar (lembre-se o papel de França, um dos países invasores, que estava como Protectora da Missão Católica). Esta estratégia de “armas dos militares à frente e bíblias na retaguarda” condenou o papel da Igreja ao fracasso naquele período.

Durante muito tempo, não tanto pela força da moral, mas em grande parte pela força dos arsenais militares (em pleno contraste com o modo soave que Ricci tanto alertava no processo de inserção dos missionários), o Cristianismo não brotou na China e ficou associado ao imperialismo, ao Ocidente, ao estrangeiro. Quando o PCC chegou ao poder, umas das suas primeiras missões era a libertação dos vínculos colonialistas e imperialistas que tanto prejudicaram a China. Foi e é objectivo do PCC garantir que a história não se repete neste aspecto e proteger o povo chinês de influências externas nefastas. Havia que fortalecer o país e o governo tomou medidas para tal.

Apesar de ser um partido ateísta, o PCC não proibiu o culto de qualquer religião por parte dos cidadãos (salvo período Revolução Cultural), estando igualmente o Catolicismo e o Protestantismo entre as principais religiões aceites na RPC. No entanto, de forma a evitar que as tais interferências vindas do exterior penetrem no país, o PCC decidiu proteger o culto religioso aceitando a criação de Associações Religiosas que levem a cabo os ensinamentos dessas religiões. É com base no princípio das “Três Autonomias” que estas organizações se gerem, evitando contactos com o exterior ao nível da eleição de representantes e dependências financeiras.

O PCC, apesar de não ter relações oficiais com a Santa Sé, dá liberdade aos católicos de rezar pelo líder espiritual da sua religião e que acompanhem os seus ensinamentos. Aliás, nas missas o padre/bispo pode mencioná-lo na Oração Eucarística. A APCC também segue as instruções espirituais do Papa nas suas práticas junto dos crentes. Contudo, para evitar a formação de seitas, rituais ou práticas dissidentes foi necessário criar um “Estado de Direito” para que se proceda o seguimento legal de todas as acções ligadas à Igreja e para isso a APCC é responsável por creditar todas elas.

É igualmente visível a importância atribuída pelo governo aos assuntos religiosos. Principalmente na era Xi, com a inclusão dos representantes de cada religião oficial no 19º Congresso. O PCC é responsável por “guiar” e apontar as directrizes que a Igreja deve seguir para alcançar uma sociedade socialista. A esta, compete-lhe a divulgação e inclusão do grupo de crentes nesse rumo. Consegue-se percepcionar a ênfase nesse caminho, tendo a sua expressão máxima a “Sinicização” do catolicismo, reforçado também no Fórum Teológico Católico de Ningxia. Espera-se do catolicismo uma igreja de chineses para chineses, oposta à vertente convencional ocidental, nomeadamente na própria interpretação do Evangelho que foi transcrito e explicado através do pensamento de uma outra cultura que não a chinesa. Não só se espera uma mudança em termos bíblicos, como também de uma imagem renovada da Igreja, traduzida na presença física, tendo que se adaptar edifícios à cultura e à arquitectura nacional. Através deste processo pretende-se criar uma “identidade católica” própria da China.

 

André Saraiva Santos
é Professor de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Línguas Estrangeiras de Jilin (China). Colabora com o Diário de Aveiro para as edições das “Crónicas da Manchúria”. Presidente e fundador da Estudantuna Romancina. Membro da Comunidade Católica Cristã da Catedral de Stª Teresa de Changchun.

Larissa Ma Kehan
é Mestranda no curso de Português Língua Estrangeira na Universidade de Aveiro (Portugal)

 

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([1]) Os Delegados Apostólicos, ao contrário dos Núncios, não fazem parte dos representantes diplomáticos da Santa Sé, não sendo portanto representantes do Papa para o Estado em que são enviados. A sua natureza é a de “representante oficioso” da Santa Sé no exterior, e que é enviado devido à ausência de relações oficias entre o Estado em questão e o Papado (VIZCAÍNO).